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WORDS...
—Ao morrer, cada um de nós deve
dizer à Morte: «Deixe-me estar ainda um bocadinho. Esquecia-me por completo de
viver...»
—Xerxes chicoteou o Helesponto.
Quando nós nos queixamos do Destino, somos tão pueris como esse rei.
—A dor deve ser como um
amante—que nos faz sofrer e em quem batemos.
—Nietzsche definiu a glória «a
falta de pudor na admiração». No meu país, é a falta de pudor na incompreensão.
—No silêncio, nascem em nós
sentidos: os sentidos para a vida do mistério...
—Obsessão a brocar um moribundo:
«Nunca olhei, sem outra idéia,
para o sol...
—Só a verdade é inverossímil.
—A amizade é uma hipótese divina
que só os grosseiros cuidam ter vivido.
—Avaliamos quase sempre os outros
pelas opiniões que tem de nós. É por isso que conhecemos menos—aqueles que mais
julgam conhecer-nos.
—Os artistas procuram no amor,
além da satisfação do instinto, a glória,—na admiração de mãos postas da
mulher. Compensa-os de não terem público, e só tarde percebem—que quanto mais
beijados... mais inéditos.
—É preciso ser feliz em família para
compreender a volúpia de estar só.
—Porque é que os ciprestes
entristecem?... Porque, para nós, são um soluço alongado e verde-escuro. É bem
possível que eles sejam muito alegres... É por motivos destes que muitas coisas
nos parecem tristes.
—Alguns dizem: publicar um livro
é prostituir-se. Pedantes! O mar recebe nele os vossos corpos...
—Quem mais injustamente julga um
crime? Primeiro o criminoso, que estava fora de si, que já não sabe; depois os
julgadores oficiais—que estão fora de si profissionalmente.
—Aut César aut nihil. Podes ser um mendigo e ter na tua vida
interior este brasão.
—Sou por tal forma talhado para amar—que o meu
amor cresce com o meu desprezo.
—A maior parte da gente é
honesta—em virtude da lei do menor esforço.
—Há um instante na vida em que
cada um de nós se julga um deus: com uma doutrina a revelar, um calvário nos
longes e um profeta...
—Quando depois de lamentar alguém o vemos
salvo, sentimo-nos roubados.
—A arte é o refúgio dos que não podem viver
integralmente. E muitas vezes também, uma vingança.
—A mentira e o dever são irmãos gêmeos.
Quando naturalmente, por
instinto, nós fugimos ao código e à moral, ela apareceu-nos, máscara doirada,
para esconder a responsabilidade. Mas há outra, a mentira criadora, que é a asa
do Sonho e da Beleza. Os filósofos chamam-lhe:—Verdade...
—Umas mãos, um gesto de mulher, um
perfume de flor, ou um velho estofo, consolam bem melhor que Marco Aurélio...
—As mulheres não falam só ao
nosso instinto. Falam mais: sem se ouvirem, sem saberem... São quase sempre
vazias ou banais. Mas para além da frivolidade e do desejo, são verdadeiras
fontes de inconsciente. Numas pálpebras descidas, num olhar, no misterioso de
milhares de nadas, há sonhos e sonhos revelados, a expressão do irredutível a
palavras.
Elas são na sua vida interior,
como crianças a assistir a uma tragédia... Soube lá nunca a Mona Lisa que tinha
tudo o que Vinci copiou!...
—Um perfume na sombra tem uma voz
de aparição.
—A renúncia é uma doença do
desejo. Vem com a velhice quase sempre.
—A humildade corresponde no homem
ao mimetismo dos insetos.
—Certas preferências—que nem o
raciocínio nem a estesia explicam—despertam em nós sensações de vidas
anteriores: um certo perfume, uma paisagem para outros sem encanto, certa feia,
uns versos medíocres, um acorde banal...
—Recusei ontem uma apresentação a
um «homem de princípios». Para quê? Um «homem de princípios» é um homem
conhecido: está impresso.
—Música do mar—Aquele violinista
meu amigo foi viver, por conselho meu, para a beira mar. Ia com uma grande
febre de compor. Levava um quarteto inacabado, um esboço de sinfonia, outros
projetos... Encontrei-o na praia ontem à noite.—Então... esse quarteto? a
sinfonia?...—Nem quarteto... nem sinfonia... nem violino... Eu já não faço
música. Pus-me a ouvir a do mar bem simplesmente.
—A moral é um lastro. Deita-se
fora para subir...
—Todos dizem adeus com o mesmo
gesto. E esse gesto é o das asas... Subir é ficar só.
—Quando duas criaturas se amam,
não pensam um instante em compreender-se. Uma vaga de inconsciente
submergiu-as. Só mais tarde, morto o desejo, se reconhecem com espanto, dois
estranhos.
Dizem com desespero: «Um de nós
mudou. Já não somos os mesmos».
—De uma maneira geral, temos mais
pontos de contato com os nossos inimigos do que com os nossos amigos.
Amar uma mulher, querer conseguir
o mesmo fim, são causas de ódio.
—O nosso inimigo é o nosso
cúmplice.
—Os programas de governo estão
para a política, como os dogmas para as religiões. Nem os primeiros interessam
os partidários, nem os segundos os crentes.
—A liturgia obliterou-se, é de
uma teatralidade já sem símbolo. Corresponde à retórica—ou arte de hipnotizar
imbecis com gestos e palavras em que se sacrifica à idéia ausente.
—Não há esculturas como as
nuvens.
—Os homens que constroem um
sistema, fazem a própria jaula em que se fecham.
—A grande indústria humana—a
específica—é a fabricação de deuses.
—Para viver puro é preciso durar
como as espumas: um instante.
—A tragédia de D. João está no
supremo poder de seduzir, de que ele próprio foi a maior vítima. Em nenhum amor
matou a sede.
De mulher em mulher, como outros
de idéia em idéia, ele era, essencialmente, um homem bêbedo de Deus, como Spinosa.
—Um perfume é uma confidência: é também
o olhar das flores, e, segundo Helo, o seu estilo.
—Viajar é a arte de saborear
decepções.
—A magia da viagem, tão grande
como a do amor, começa no instante do regresso. A do amor chama-se—saudade, a
da viagem—evocação.
—Se na morte tivéssemos
consciência—gozaríamos enfim a viagem da vida.
—Um artista numa terra nova tem a
sensação de nascer segunda vez.
—As escolas literárias são
verdadeiras cooperativas de consumo. É só matricular-se... e cozinhar.
—Os gênios são inclassificáveis:
são a promessa falhada de outra espécie.
—A garra do gênio é a sinceridade.—Falar por la bocca de su herida é um ato heróico.
—Só são coerentes os factícios.
—Os que se conhecem, são vazios.
—A palavra de honra é uma gazua.
Força a credulidade dos ingênuos quando não temos força moral para os
convencer.
—A música é o médium do mistério.
—A eternidade é a sensação de
alguns instantes...
Às vezes é num grande perigo que
a sentimos: certos segundos lúcidos da agonia em que se faz o supremo exame de
consciência; antes duma operação grave, quando cada gesto tem um fervor de
despedida; nos últimos minutos dum condenado à morte.
Outras vezes, é num grande gozo
que a entrevemos: no espasmo da cópula; na aura do ataque epiléptico (que
Dostoiévski diviniza); nos primeiros momentos de admiração por uma obra-prima;
na vertigem da criação sub-consciente; e finalmente os místicos, na absorção em
Deus, ou, segundo a expressão de Dante, quando «partem do século».
—Uma vez, tomando nas mãos uma
cabeça de mulher, disse-lhe baixo, com a vontade perdida nos seus olhos: «Podes
fazer de mim o que quiseres».
É isto que eu agora digo à Vida.
—Testamento dum pobre—Se eu
morrer na primavera, envolvam em feno aromático meu cadáver nu, cubram-me de
lilases e de rosas, deixem-me decompor assim—com tantos vermes como borboletas!
Enterrem nos meus olhos de morto
já gomosos, pecíolos de rosas de veludo. Não me embalsamem. Que eu seja uma
podridão bem petalada!
Ponham-me sob uma árvore florida,
para que um vento de cópula passando, sacuda o pólen sobre o meu cabelo! Depois
no roxo outono, morto, o mais feliz dos mortos, cada corvo que vier
grasnando—há de partir de gula o bico curvo contra o meu crânio em que há
pétalas murchas...
—O sacrifício é a seleção natural
invertida: os fortes servem de degrau aos fracos.
—A incoerência instintiva,
absolutamente sincera, tem uma lógica interior—a própria lógica da vida—que os
psicólogos profissionais nunca auscultaram. Os personagens de Dostoiévski, por
exemplo, ganham tanto mais em unidade e em verdade, quanto mais, para olhos
vulgares, se contradizem. Bourget é o psicólogo da coerência...
—O grito de Oswald Alving no
último ato dos «Espectros»: «Mãe, dá-me o sol», é o grito que a morte gela em
muitas bocas.
—Portugal é um navio naufragado
em que a tripulação espera há séculos...
—A arquitetura que eu mais amo é
a dos navios.
Os mastros aspiram como agulhas
góticas, mas enquanto a catedral se queda em êxtase, as velas seguem entre
adágios de asas...
—Adoro o mar. Ando a ensinar ao
meu desejo um ritmo de ondas, e à minha dor a arquear de desespero como as
vagas—mas a sorrir por fim em pó de espumas.
—A. é um místico (medievalite e hidrofobia), B. vê tudo
Wateau (é um requintado...), C. é um grego do tempo de Péricles; eu, tal qual
tu me vês, sou um romano...
Quantos homens da Renascença tu
conheces!...
O visconde L., por exemplo, é um
Medicis...
Como quase ninguém está nesta
época—é bem de ver— quase ninguém existe. Os que tu vês—são só sobreviventes...
almas fósseis...
—Uma estátua mutilada humilha
menos a nossa imperfeição: está mais perto de nós, comove mais.
—Conheci um poeta que escreveu a
«Imitação do Mar», paralelo á «Imitação de Cristo».
Durante semanas viveu num
quarto—só—uma vida de vaga. Encrespou, arqueou num grande esforço, foi um
côncavo glauco cheio de asas, e explodiu a rir—todo espumante...
Só eu sei que se matou por não
poder reviver aquela vida.
—Um livro tem para o autor uma
outra voz: a do seu sangue a correr pelas palavras.
—O ritmo é o anestésico mais forte.
—O sarcasmo é um soluço que
despreza.
—Alguns escritores publicam os
retratos nos seus livros. Ignoram, decerto, que a vera efígie de um artista é o
estilo.
—Há no fundo do panfletário mais
violento, um pobre diabo ingênuo, fascinado, que aspira a conselheiro—sem
saber...
—Receita para fazer sucesso: condensar
a banalidade, dar-lhe ênfase e imprimi-la com maiúsculas...
—Alguns condenam as corridas de
touros e proclamam como uma obrigação—o sacrifício...
—A procurar o sentido da vida,
esquece-se muita gente de viver.
—Conheço muita gente que só olha
a natureza... emoldurada.
—O processo, em arte, é o maquillage do talento.
—O sucesso faz-se nos jornais:—a
glória no silêncio.
—Quando um homem superior é
célebre, ou é admirado por defeitos, ou então por qualidades que não tem...
—As metafísicas são a Belle au bois dormant contada em idéias.
—Que frio! Deito ao lume os meus
deuses para aquecer... É bom ouvi-los crepitar: lenha divina!
Mas da cinza dos deuses—nascem
deuses. Pela janela aberta vejo uma estátua na névoa: o super-homem!
Criar deuses é a mais estranha
função da nossa espécie. Nem podemos aspirar as rosas: vivemos asfixiados de
divino...
—Já viste uma ave
livre—adormecida?... Tem nas asas fechadas todo o céu. Antes de te deitares,
bebe à janela a noite, até caíres...
—A civilização é uma camisa de
forças. Há duas maneiras de a rasgar: a arte e o crime.
—A sociedade perfeita é a de
Narciso: a própria imagem refletida numa fonte. É o máximo e o mínimo de
convívio.
—A alegria é a pérola dos
mergulhadores. Só se descobre com muitas atmosferas de dor por sobre os ombros.
—Meditar é viajar através de nós
mesmos.
—A lei faz isto: que um homem
passe com fome num pomar sem cravar os dentes num só fruto...
—As academias são o trust da glória. Às vezes, são também o
asilo...
—Para saberes a expressão que tem
as rochas, encomenda uma a um escultor. Nenhum ta poderá executar. São mil
máscaras fundidas numa máscara.
—A melhor maneira de admirar um
escritor é viver segundo o ritmo da sua obra.
—Viver é adorar com o corpo todo.
A suprema oração é o desejo, a linguagem—a arte, que é o esforço heróico para a
Beleza.
—Morte! És para mim o sal da
vida...
O teu silêncio grita:—andem
depressa! Deita mais lenha na ambição, ambicioso; decifrador de enigmas, parte
a esfinge; corpo a corpo, amorosos, sonho em sonho; e tu, maníaco de teorias,
bom filósofo, coze depressa o teu sistema—anda depressa!...
O teu silêncio excita como uma
dança de baiaderas: dá vertigem...
Para exasperar em nós a sagrada
loucura de viver, para que os homens não percam um instante—ergam-te estátuas
nos jardins, nas praças, na cimalha das academias e dos templos, Musagéta da
Vida, grande Morte, com a lira de Apolo e olhos vazios...
—O que é o mar para o meu corpo,
é a dor para a minha alma.
—A solidão, beata solitudo, é o
palácio encantado dos espelhos. Ó alma, corre as tuas galerias. Miríades de
retratos, de obras-primas, no dédalo dos corredores, nas salas lúcidas,
ecoando em reflexos, irisando-se, como a palavra de Deus de estrela em
estrela. É o teu povo; és tu, alma: és tu mesma.
—O tato da alma é a evocação.
—Outono: idílio da Natureza com a
Morte.
—O amor é o gênio do desejo: um
instinto espiritualizado.
—A arte é uma espécie de alquimia: mesmo do
crime, extrai o ouro mais puro.
C. F., meu ex-condiscípulo,
despediu-se de mim para casar, como outros se despedem para morrer. Casou
depois de ter vivido intensamente,—como outros se fazem morfinômanos ou
alcoólicos: para anular a sua inquietação, a sua febre, na sedativa estupidez
da vida séria. Sentia-se sem saúde e sem coragem, quer para viver a vida com
nobreza, quer para ir ao encontro ao seu outono, morrendo a tempo—como manda o
meu filósofo. Foi há três anos. Nunca mais nos vimos. Soube depois, por os
jornais, que é deputado e, o que é melhor... ou pior, que vai ser par. Não sei
se o meu amigo conseguiu a paz no anulamento, ou se é o ator duma comédia
lúgubre—mascarando de banalidade o seu espírito. Deixou-me à hora da morte (à
hora da vida social, da vida séria) os seus cadernos de notas—e uma obra de
humorismo lírico, de ironia comovida e filosófica:—A Metafísica de uma
borboleta.—Estas notas, que transcrevo de um dos seus cadernos, de entre as que
não ferem sensivelmente a moral pública, são talvez—os senhores dirão—curiosas.
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Nota:
Antônio Patrício: "Serão Inquieto" (1910)
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Advertência:
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